O que me marcou foi ver a extrema carência de condições de higiene, alimentação e educação de muitas crianças em uma das escolas municipais que direciono o Círculo. Ouvi crianças me dizendo que estavam o dia inteiro sem comer, isso já no turno da tarde. Crianças usando roupas rasgadas e sujas, cujo cheiro inundava as aulas. Crianças com o linguajar extremamente baixo, rápidas para falar palavrões e cantar músicas de funk, e por outro lado, lentas para compreenderem a diferença entre uma letra e um número. Turmas inteiras que estavam totalmente segregadas, onde pequenos grupos se formavam e entre esses grupos parecia não haver respeito algum. Isso foi um grande susto para mim, pois pensava “como desenvolver um ambiente de colaboração e respeito com crianças cujas experiências de vida apontam exatamente na direção contrária?”. O desafio de trabalhar com essas turmas e “remar contra a maré” certamente tem sido uma experiência marcante. Tentar promover o respeito tem sido difícil, mas aos poucos pequenos resultados tem aparecido. Já recebi alguns abraços de crianças que estavam totalmente distantes. Alguns alunos tem começado a parar para escutar o que seus colegas estão dizendo. Parece haver menos “guerra” dentro dos Círculos e alguns alunos tem tomado a posição de pedir para que seus colegas cooperem. Ainda tenho muitas dificuldades em trabalhar com essas turmas, mas tenho aprendido a amar essas crianças. Semana passada uma das alunas, que se mostrava mais resistente no início, sentou-se do meu lado antes da aula começar, ela estava ardendo em febre e eu lhe perguntei se já havia falado com sua professora que não estava se sentindo bem. Ela respondeu que sim, mas que teria que esperar até o fim do dia, quando sua mãe poderia buscá-la, mas que ela não se importava pois não queria perder a aula do Círculo…