Enquanto íamos “descobrindo” os números negativos ao ver a bailarina dançar sobre a reta para trás do zero, vi um sorriso surgir no rosto de uma das alunas: continuamos a atividade e em certo momento ela levantou a mão e disse animada “olha! Estamos entrando no mundo dos contrários!”. Tive que rir e disse “é verdade, não é legal?”, ela acenou com a cabeça e continuou a observar esse novo “mundo” que estava enxergando…

Aluna de Samanta Stein da Silva- Porto Alegre

O que me marcou foi ver a extrema carência de condições de higiene, alimentação e educação de muitas crianças em uma das escolas municipais que direciono o Círculo. Ouvi crianças me dizendo que estavam o dia inteiro sem comer, isso já no turno da tarde. Crianças usando roupas rasgadas e sujas, cujo cheiro inundava as aulas. Crianças com o linguajar extremamente baixo, rápidas para falar palavrões e cantar músicas de funk, e por outro lado, lentas para compreenderem a diferença entre uma letra e um número. Turmas inteiras que estavam totalmente segregadas, onde pequenos grupos se formavam e entre esses grupos parecia não haver respeito algum. Isso foi um grande susto para mim, pois pensava “como desenvolver um ambiente de colaboração e respeito com crianças cujas experiências de vida apontam exatamente na direção contrária?”. O desafio de trabalhar com essas turmas e “remar contra a maré” certamente tem sido uma experiência marcante. Tentar promover o respeito tem sido difícil, mas aos poucos pequenos resultados tem aparecido. Já recebi alguns abraços de crianças que estavam totalmente distantes. Alguns alunos tem começado a parar para escutar o que seus colegas estão dizendo. Parece haver menos “guerra” dentro dos Círculos e alguns alunos tem tomado a posição de pedir para que seus colegas cooperem. Ainda tenho muitas dificuldades em trabalhar com essas turmas, mas tenho aprendido a amar essas crianças. Semana passada uma das alunas, que se mostrava mais resistente no início, sentou-se do meu lado antes da aula começar, ela estava ardendo em febre e eu lhe perguntei se já havia falado com sua professora que não estava se sentindo bem. Ela respondeu que sim, mas que teria que esperar até o fim do dia, quando sua mãe poderia buscá-la, mas que ela não se importava pois não queria perder a aula do Círculo…

Samanta Stein da Silva (Porto Alegre)

Quando iniciamos as aulas do Círculo não temos a noção do impacto que uma aula diferenciada faz na cabeça das crianças. Tenho uma aluna super-tímida, de 6 anos. Certa vez quando estávamos na atividade do labirinto, ela resolveu participar e achei super interessante a simetria que ela fez nos labirintos. O resto da turma a elogiou bastante dizendo que “- o jeito dela é melhor, tia; me ensina colega?” No fim da aula a mãe dela veio conversar comigo e viu a filha interagindo com a turma e me agradeceu pelo trabalho e por ter proporcionado a ela ver a filha tão feliz. Descobri depois que a professora regular dela era do tipo que grita o tempo inteiro, então isso acentuava a timidez dela. Enfim, parece bobagem mas essas pequenas coisas fazem um bem imenso para nós professores. Obrigada ao Círculo por me proporcionar isso!

Priscila Perez (Belém)

Minha experiência mais marcante foi quando apliquei a atividade máquina de funções e deixei os alunos inventarem seus próprios segredos. Um dos alunos, durante o processo de colher palpites e escrever os seus respectivos resultados, errou a resposta. Quando os outros colegas perceberam o erro, prontamente começaram a insultar o garoto, o que foi bastante difícil de controlar. Ao fim da atividade ele chegou até mim e disse: “- desculpa viu professora, é que eu não sou bom nessas coisas não”. Eu respondi: “- sem problemas, eu também não havia percebido que estava errado, só vi quando contei nos dedos com vocês”. Então ele sorriu, me abraçou e foi para a sua sala de aula. O importante para mim foi a proximidade que consegui com ele apenas por ter me posto numa posição de companheirismo, de que estava ali para aprender também.

Maysa Menezes (Aracajú)

Em uma aula, um aluno estava atrapalhando consideravelmente os colegas e não estava prestando atenção. Chamei sua atenção diversas vezes durante a aula, mas isso não surtiu nenhum efeito. Decidi então ser mais firme em minha posição e ele me disse que iria prestar atenção ao restante da aula. Nesse momento ele abriu o caderno e começou a resolver a tabuada sozinho e em silêncio. Continuou a fazer contas até acabar a aula, levantou e foi embora. Para ele, bom comportamento em uma aula de matemática é resolver exercícios e não abrir a boca. Isso me fez perceber como as aulas do Círculo da Matemática – nas quais fazemos com que as crianças participem, falem, perguntem- são diferentes das aulas com as quais as crianças estão acostumadas, em que o comportamento desejado é resolver exercícios e copiar a lousa em silêncio.

Rodrigo Rezende (São Paulo)

Algumas crianças ficam muito desconfiadas dos tais números antes do zero e eu paro por aí para evitar o desânimo delas. Mas em algumas turmas, notei os olhinhos brilhando, daí eu continuo ‘dançando’ e eles vão ficando mais entretidos. Um menino, no CEU, ficou particularmente maravilhado com a descoberta e perguntou: “- a calculadora sabe desses números?

Vanessa Araújo Rodrigues (São Paulo)

Nas minhas primeiras aulas, eu passei por momentos terríveis, de um sentimento de impotência e inabilidade que acabaram comigo, a sala dispersa, os alunos que não entendiam, principalmente aqueles que não entendiam nem o suficiente para perguntar, eram todos elementos que minaram minhas forças. Em um segundo momento, tive contato com as professoras de uma escola, e pude perceber como funcionava a relação com elas e seus alunos. Outro choque. Fiquei chocado com a agressividade com a qual os alunos eram tratados, ainda mais depois de todo o processo que passei no Círculo e todas as ideias de respeito e construção mútua do conhecimento que o Bob e a Ellen nos trouxeram, ficou bastante nítido como o Círculo da Matemática se diferencia do ensino formal.

Gustavo Silva Marques de Paula (Brasília)

A turma é do 4º ano vespertino. Os alunos: crianças de 9 a 14 anos, meninos e meninas muito, mas muito diferentes entre si. Disléxico, hiperativo, tímido, bom…cada qual com sua peculiaridade. Resolvi trabalhar com eles o labirinto e, como a classe não tinha um quadro branco, fiz o desenho em uma folha, fotocopiei e entreguei a cada um. Brincamos e conversamos sobre escolhas, caminhos a serem trilhados por nós pela vida. A partir disso, desafiei os alunos a percorrerem cada labirinto até encontrarem o caminho que possibilitasse passar por todos os quadradinhos do labirinto. Foi um momento crucial. Os alunos desta turma brigam bastante entre si, a ponto de partirem para agressões físicas significativas. Mas, com a atividade, começaram a interagir, uns ajudados aos outros. Os que conseguiram compreender a dinâmica ajudavam àqueles que apresentaram algum tipo de dificuldade, mesmo a relacionada a coordenação motora. Percebo que as atividades do Círculo da Matemática também contribuem para a (re)construção das relações sociais, que são muito comprometidas entre crianças que (sobre)vivem em um meio socioeconômico cruel, principalmente com pessoas que, muitas vezes não compreendem alguns acontecimentos tão comuns e tão difíceis em suas vidas.

Adriana da Paixão Santos (Salvador)

Tenho uma aluna que me marcou e ainda me marca muito pelo fato de ser extremamente hostil às minhas aulas, não querer participar por mais incessantes que sejam minhas perguntas direcionadas muitas vezes a ela, como ‘qual o seu número favorito?’. Ela chora durante minhas aulas. Porém, sempre que me vê fora da sala de aula, até mesmo na rua, ela vem, sem dizer nada, sorri e me abraça. Esse relato, para mim, ainda não tem uma conclusão, mas, certamente precisamos aprender a lidar com a carência das crianças, não só a carência de educação, de matemática, mas sua carência emocional/afetiva.

Kayleigh Meneghini (São Paulo)

Entreguei os questionários [de avaliação] aos alunos, os quais foram prontamente respondidos pelos mesmos. Após alguns minutos, diversos alunos começaram a dizer que não tinham entendido a questão 2, que falava sobre uma situação impossível concretamente: “há 3 pessoas em uma sala e 7 saem…” Meu primeiro impulso foi sentir uma certa raiva do questionário, por ter nos colocado em uma situação tão desesperadora. Depois de um tempo, percebi que a intenção do Círculo da Matemática é justamente desafiar a lógica da criança, colocando-a sempre numa situação em que ela tem que pensar para se adaptar.

Bruno Macedo Alves (Brasília)

Algumas das coisas que mais me marcaram foi ouvir os relatos das próprias crianças, que aos poucos vão se encantando. Uma das crianças ao final de uma das aulas falou abertamente aos outros coleguinhas: “– Puxa! Como matemática é legal! Eu nunca tinha percebido que as coisas acontecem desta maneira”. Já outro fato interessante foi após as turminhas terem chegado a conclusão dos números negativos e algumas delas ficaram impressionadas com a existência de números menores que zero; chegando a ir correndo até a professora regente da sala explicar o que elas tinham aprendido. Uma outra aluna ao final da aula comentou: “–nossa! Como isso é legal! Eu acho que nem a tia Bruna (professora regente do terceiro ano – turno tarde) aprendeu sobre esse assunto e a gente descobriu sozinhos, como somos espertos!” Relatos como esses ao final do dia, assim como tantos outros são as razões que me motivam a continuar lutando para uma melhoria na educação brasileira e acreditar nisso.

Priscila Alves de Paula Belo (Fortaleza)

“Sora, se você tem um filho que tem outro filho que tem outro filho…não vai acabar nunca! Eu acho que o mundo nunca vai acabar!” “Se a gente for continuando com essa linha de números vamos sair da escola e depois do mundo e chegamos no universo! Uaaau, sora!” “Sora, se você quisesse contar até o último número, você ficaria contando até ser velhinha e morrer e mesmo assim não iria conseguir!” E foi nesse clima de entusiasmo que eu fiz a pergunta com a qual terminei a aula: “Agora sabemos que o maior número não existe, mas será que existe o menor?”. Uma aluna olhou intrigada para o grande espaço que eu deixei antes do 0 e se perguntou baixinho: “Pois é, mas o que será que tem antes do 0?”.

Alunos de Daniela Fumegalli – Porto Alegre